Compartilhe esse artigo
Conforme indica o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, o glaucoma é frequentemente apresentado ao público leigo como uma doença causada pelo aumento da pressão dentro do olho, o que leva muitas pessoas a concluir que, se sua pressão ocular está normal nos exames de rotina, estão protegidas. Essa simplificação, embora compreensível, deixa sem diagnóstico uma parcela significativa dos pacientes com glaucoma, especialmente na terceira idade, pois existe uma forma da doença que destrói o nervo óptico mesmo com pressão ocular dentro dos valores considerados normais.
Neste guia, abordaremos o que é o glaucoma de pressão normal, por que ele é tão difícil de detectar e o que pode ser feito para proteger a visão do idoso.
O que é o glaucoma e como ele destrói a visão silenciosamente?
O glaucoma é uma doença do nervo óptico, estrutura responsável por transmitir as informações visuais captadas pela retina ao cérebro. Independentemente da causa, o resultado final do glaucoma não tratado é a destruição progressiva das fibras nervosas que compõem o nervo óptico, produzindo perda de campo visual que começa pelas regiões periféricas e avança em direção ao centro ao longo de anos ou décadas. Essa progressão lenta e indolor é o que torna o glaucoma tão perigoso: o paciente frequentemente não percebe a perda visual até que ela já seja significativa e irreversível.
Como detalha Yuri Silva Portela, o glaucoma afeta cerca de 3% da população acima de 40 anos e sua prevalência aumenta significativamente com a idade, tornando-o uma das principais causas de cegueira irreversível em idosos no mundo. O diagnóstico precoce, antes que a perda visual seja perceptível ao paciente, é o único caminho para preservar a função visual, pois o dano já causado ao nervo óptico não pode ser revertido por nenhum tratamento disponível.
Por que a pressão ocular normal não descarta o glaucoma?
O glaucoma de pressão normal, também denominado glaucoma de baixa tensão, acomete pacientes cujos valores de pressão intraocular estão dentro do intervalo considerado normal, geralmente abaixo de 21 mmHg, mas cujo nervo óptico apresenta dano progressivo compatível com glaucoma. Estima-se que essa forma da doença represente entre 30% e 40% de todos os casos de glaucoma em populações ocidentais e uma proporção ainda maior em populações asiáticas.

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, o mecanismo pelo qual o nervo óptico se deteriora sem pressão elevada ainda não é completamente compreendido, mas parece envolver vulnerabilidade vascular específica do nervo óptico, com fluxo sanguíneo insuficiente para suas necessidades metabólicas, mesmo na ausência de pressão mecânica excessiva. Condições como hipotensão arterial, especialmente durante o sono, doenças cardiovasculares e uso de certos medicamentos anti-hipertensivos são fatores associados ao glaucoma de pressão normal que o médico geriatra precisa considerar na avaliação do idoso com essa condição.
Como o glaucoma de pressão normal é diagnosticado?
O diagnóstico do glaucoma de pressão normal exige uma avaliação oftalmológica completa que vai muito além da medição da pressão ocular. A análise da morfologia do nervo óptico por meio de tomografia de coerência óptica, a avaliação do campo visual por perimetria computadorizada e o estudo das fibras nervosas da retina são exames que permitem identificar dano glaucomatoso mesmo na ausência de pressão elevada. Esses exames, no entanto, raramente fazem parte da triagem oftalmológica básica oferecida em serviços de saúde primária.
Conforme ressalta Yuri Silva Portela, o idoso que realiza apenas a medição da pressão ocular em consultas de rotina e recebe a informação de que a pressão está normal pode estar sendo falsamente tranquilizado enquanto o glaucoma de pressão normal avança silenciosamente. A recomendação de avaliação oftalmológica completa com análise do nervo óptico para todos os idosos acima de 60 anos, especialmente aqueles com histórico familiar de glaucoma, é uma medida preventiva com impacto real sobre a preservação da visão na terceira idade.
Tratamento e o que o idoso pode fazer para proteger sua visão
O tratamento do glaucoma de pressão normal visa reduzir ainda mais a pressão intraocular, mesmo que ela já esteja dentro dos valores normais, pois estudos demonstram que essa redução retarda a progressão do dano ao nervo óptico. Colírios análogos de prostaglandina, betabloqueadores e inibidores da anidrase carbônica são as principais opções farmacológicas, com cirurgia reservada para casos de progressão apesar do tratamento clínico adequado.
Como frisa Yuri Silva Portela, o idoso com glaucoma de pressão normal precisa compreender que o tratamento não restaura a visão perdida, mas protege a visão remanescente. Essa distinção, quando comunicada com clareza pelo médico, aumenta a adesão ao tratamento e a motivação para o acompanhamento regular, que precisa ser mantido indefinidamente, pois o glaucoma é uma condição crônica sem cura, apenas com controle.
