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As redes sociais viraram fonte de informação médica para milhões de brasileiros, mas especialistas apontam riscos de automedicação e desinformação quando criadores de conteúdo divulgam medicamentos sem orientação profissional.
Nos últimos meses, o crescimento de perfis dedicados a saúde, bem estar e medicina tem gerado um debate cada vez mais presente entre médicos, farmacêuticos e órgãos reguladores. As redes sociais transformaram a forma como as pessoas buscam informações sobre saúde, e essa mudança trouxe tanto acesso facilitado a conteúdo educativo quanto uma nova porta de entrada para informações imprecisas. O tema ganhou força justamente porque envolve um público que confia na proximidade e na linguagem simples de quem produz esse tipo de conteúdo, o que amplia o alcance de mensagens nem sempre respaldadas por evidências científicas. CFF
O poder de persuasão dos relatos pessoais
Um dos pontos que mais chama atenção de pesquisadores é a forma como experiências pessoais se misturam com publicidade. O principal alerta envolve conteúdos que misturam experiências pessoais, publicidade e pouca transparência sobre interesses comerciais, o que dificulta que o espectador identifique quando está diante de uma indicação genuína ou de uma ação patrocinada. Segundo uma revisão publicada na JAMA Network Open, a mistura entre testemunho e publicidade dificulta a identificação de propaganda e aumenta o poder de persuasão, o que se torna ainda mais relevante quando o tema envolve remédios e tratamentos de saúde. A Cidade OnA Cidade On
Esse fenômeno não se limita a criadores sem formação técnica. Um levantamento recente mostrou que foram mapeados 234 perfis de influenciadores digitais na área da enfermagem no Brasil, e que juntos esses comunicadores atingem aproximadamente 32 milhões de usuários nas redes sociais. O alcance expressivo reforça por que entidades de classe têm cobrado mais cuidado na forma como profissionais de saúde e leigos comunicam sobre remédios, procedimentos e diagnósticos nas plataformas digitais. doajdoaj
Automedicação estimulada por vídeos virais
O Conselho Federal de Farmácia tem reforçado o alerta sobre os efeitos práticos desse tipo de conteúdo na rotina de quem consome. A forte presença nas redes sociais faz com que adolescentes e adultos jovens sejam constantemente impactados por conteúdos que estimulam padrões estéticos, promessas de resultados rápidos e tendências relacionadas ao uso de medicamentos. Vídeos curtos e virais, por sua própria linguagem direta, tendem a simplificar informações complexas, o que pode passar a falsa impressão de que um tratamento funciona da mesma forma para qualquer pessoa. CFF
Segundo a entidade, quando um influenciador relata experiência pessoal positiva com determinado medicamento, muitos seguidores passam a acreditar que o uso será igualmente seguro para qualquer pessoa. Na prática, fatores como idade, histórico clínico e uso simultâneo de outras substâncias raramente aparecem nesses relatos, mas são determinantes para saber se um remédio é seguro em cada caso individual. É esse hiato entre o relato pessoal e a avaliação clínica que mais preocupa profissionais da saúde. CFF
Além dos remédios em si, o crescimento acelerado da chamada “creator economy” na área médica também chama atenção pelo volume financeiro envolvido. O mercado global de criadores de conteúdo em saúde deve ultrapassar US$ 20 bilhões até 2026, um montante que evidencia como a comunicação em saúde deixou de ser apenas informativa e passou a movimentar uma indústria de marketing médico estruturada, com estratégias de posicionamento e monetização de audiência. Pistapop
O que diz a regulamentação sobre publicidade de medicamentos
No Brasil, existe uma base legal para tentar conter excessos nesse tipo de divulgação. A propaganda de medicamentos segue regras da Anvisa, enquanto a publicidade médica obedece normas do Conselho Federal de Medicina. Ainda assim, especialistas reconhecem que a fiscalização enfrenta dificuldades para acompanhar a velocidade com que o conteúdo circula nas redes, especialmente em formatos curtos e virais que escapam do controle tradicional de propaganda. A Cidade On
Some-se a isso um dado preocupante sobre a qualidade da informação em circulação: conteúdos falsos sobre saúde criados com apoio de inteligência artificial triplicaram entre 2024 e 2025, segundo a Agência Lupa. Esse crescimento amplia o desafio para quem tenta separar informação confiável de conteúdo enganoso, já que ferramentas de geração automática tornam mais fácil produzir material que parece profissional, mas carece de embasamento científico. Pistapop
Como o leitor pode se proteger da desinformação em saúde
Diante desse cenário, a orientação mais repetida por médicos e farmacêuticos é simples: nenhum conteúdo de rede social substitui uma consulta profissional. Antes de seguir qualquer recomendação sobre medicamentos, tratamentos ou suplementos vistos na internet, o ideal é buscar orientação de um médico ou farmacêutico habilitado, que pode avaliar o histórico de saúde individual antes de qualquer indicação.
Também vale observar sinais de alerta em publicações desse tipo, como conteúdos que destacam apenas benefícios, omitem riscos e não deixam claro se existe alguma parceria comercial por trás da recomendação. Checar se o autor do conteúdo tem formação na área, buscar a bula oficial do produto e desconfiar de promessas de resultado rápido são atitudes simples que ajudam a reduzir a exposição a informações enganosas.
O crescimento dos influenciadores de saúde é, de certa forma, reflexo de uma demanda real por informação acessível. O problema não está na existência desse tipo de conteúdo, mas na ausência de filtros que garantam segurança para quem consome. Enquanto órgãos reguladores buscam formas de acompanhar esse ritmo, cabe ao público desenvolver o hábito de checar fontes e, principalmente, não abrir mão do acompanhamento médico tradicional diante de qualquer decisão relacionada à própria saúde.
Fontes:
