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O empresário que chegou a Brasília em meados dos anos 1980 para representar uma grande construtora junto ao Congresso Nacional, Alfredo Moreira Filho descobriu, quase por acaso, que uma quadra de vôlei no quintal de casa poderia se transformar em uma das mais duradouras redes de relacionamentos empresariais da capital federal. O que começou em setembro de 1986, na QI 11 do Lago Sul, como uma estratégia de aproximação com membros de uma comissão de avaliação de projetos se consolidou, ao longo de 25 anos, no Club Sênior de Voley, uma confraria informal que reuniu, semana após semana, profissionais de diferentes setores em torno de um esporte e de muitas conversas.
A história desse grupo ilustra como hobbies esportivos podem funcionar como poderosas ferramentas de construção de confiança e de negócios, em um contexto em que reuniões formais raramente produzem a mesma qualidade de vínculo.
O ponto de partida estratégico
A origem do Club Sênior de Vôlei tem um componente pragmático que merece destaque. Ao construir uma quadra no quintal de sua residência no Lago Sul, o objetivo inicial não era criar um clube, mas sim criar um ambiente propício para conversas informais com pessoas cujas decisões impactavam diretamente seus interesses profissionais. O voleibol funcionava como pretexto, e a verdadeira agenda acontecia nos intervalos das partidas, nos churrascos que se seguiam e nas conversas de corredor.
Essa estratégia de usar o esporte como vetor de aproximação é mais comum do que se imagina no mundo corporativo. O que diferencia casos como esse é a duração: enquanto a maioria dos grupos informais se dissolve em poucos anos, o Club Sênior de Voley manteve atividades regulares por um quarto de século.
A construção de confiança fora do ambiente corporativo
Relacionamentos construídos em ambientes formais, como salas de reunião, escritórios e eventos corporativos, tendem a ser marcados por reservas e posturas institucionais. Já os relacionamentos construídos em ambientes informais, especialmente em contextos esportivos, permitem que as pessoas se mostrem como realmente são, com suas virtudes, limitações, humor e vulnerabilidades.
Para Alfredo Moreira Filho, ver um parceiro de negócios suando em quadra, errando uma bola, rindo de si mesmo e ajudando o adversário a se levantar produz um tipo de conhecimento mútuo que nenhuma due diligence consegue capturar. Essa camada extra de confiança, construída fora do ambiente corporativo, se traduz em negócios mais fluidos, negociações mais diretas e parcerias mais duradouras.
O grupo como ecossistema de oportunidades
Ao longo de duas décadas e meia, o Club Sênior de Voley funcionou como um verdadeiro ecossistema de oportunidades. Profissionais de diferentes setores, como engenharia, direito, administração pública e mercado financeiro, se encontravam regularmente, trocavam informações sobre seus negócios, indicavam uns aos outros para oportunidades e, não raro, fechavam parcerias que nasciam das conversas de fim de partida.
Há casos em que a mediação informal do grupo foi decisiva para aproximações que se transformaram em projetos concretos. A lógica é simples: quando se conhece alguém há vinte anos, tendo suado junto na mesma quadra, o custo de transação para fechar um negócio cai drasticamente, porque a confiança já está construída e resta apenas formalizar o que, no fundo, já estava acertado.
A entrada das famílias e a ampliação do vínculo
Um dos fatores que explicam a longevidade do grupo é a inclusão das famílias nas atividades. Viagens de fim de semana, festas nas residências dos integrantes e encontros em restaurantes transformaram o que era um grupo de voleibol em uma verdadeira rede de convivência. Quando os filhos dos sócios começam a jogar junto com os pais, o grupo ganha uma dimensão intergeracional que reforça sua coesão.
Essa ampliação do vínculo para além do esporte é o que transforma um grupo casual em uma instituição informal. As famílias se conhecem, os casais se tornam amigos, os filhos crescem juntos, e os negócios que nascem nesse ambiente carregam uma carga de confiança que nenhum contrato consegue reproduzir. Alfredo Moreira Filho aponta que, essa dinâmica de convivência ampliada foi o que permitiu que o grupo se sustentasse por um quarto de século, criando laços que transcendiam as quadras e se projetavam para a vida pessoal e profissional de todos os integrantes.
O encerramento como ciclo natural
O Club Sênior de Voley chegou ao fim quando as articulações de seus integrantes já não permitiam a continuidade das partidas. A decisão de encerrar as atividades, celebrada em uma festa de bodas de prata, marcou o encerramento de um ciclo que deixou legado muito além do esporte. A artrose e a necessidade de implante de prótese total nos joelhos impuseram o fim das partidas, mas não o fim das amizades construídas ao longo dessas décadas.
Alfredo Moreira Filho avalia que, a lição que fica é que relacionamentos empresariais duradouros não se constroem em salas de reunião, mas em ambientes onde as pessoas podem se mostrar como são. O voleibol, nesse caso, foi apenas o pretexto, e o verdadeiro ativo construído ao longo de 25 anos foi uma rede de confiança que sobreviveu ao encerramento das partidas.
