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Parceria entre BBC Sport e Goal Click durante a Copa do Mundo de 2026 colocou torcedores no centro da produção de conteúdo e mostra como mídia tradicional, creators e comunidades estão construindo um novo modelo de cobertura esportiva digital. (TMC)
A transformação digital do esporte está modificando não apenas onde os torcedores acompanham partidas, mas também quem produz as histórias que circulam nas redes sociais. Durante a Copa do Mundo de 2026, uma iniciativa da BBC Sport em parceria com a Goal Click mostrou como fãs comuns podem deixar de ser apenas audiência para participar diretamente da construção da narrativa de um grande evento esportivo.
A estratégia reuniu dez torcedores de diferentes países, incluindo Brasil, México, Haiti e Panamá, para registrar suas próprias experiências durante o Mundial. Em vez de reproduzir o formato tradicional de jornalistas, câmeras profissionais e entrevistas programadas, os participantes mostraram jornadas, rituais, comemorações, encontros e experiências relacionadas ao futebol a partir de suas próprias perspectivas. (Football Business News)
O conteúdo foi planejado principalmente para ambientes digitais, com distribuição pelo aplicativo e site da BBC Sport e por plataformas sociais como Instagram e TikTok.
O projeto mostra uma mudança importante: o torcedor passa a ser também fonte, personagem e produtor da história esportiva.
BBC procurou torcedores, não grandes influenciadores
Uma característica importante da iniciativa foi a escolha dos participantes.
O projeto não buscou necessariamente personalidades com milhões de seguidores. A Goal Click trabalha com pessoas selecionadas principalmente pela história que podem contar e por sua conexão genuína com determinado esporte ou comunidade. (TMC)
Um dos exemplos foi o da brasileira Ynara Correa Costa, analista de sistemas e torcedora do Corinthians.
Segundo a coluna publicada pela TMC em 15 de agosto, ela tinha menos de 3 mil seguidores no Instagram quando participou do projeto. Apesar da audiência relativamente pequena, possuía uma relação extensa com o Mundial: acompanha presencialmente Copas do Mundo desde 1994 e já esteve em diversas edições da competição. (TMC)
É justamente essa diferença que torna o projeto relevante para o mercado de creators.
O valor do participante não estava necessariamente em sua capacidade de entregar milhões de visualizações por meio de um perfil pessoal, mas na autenticidade da experiência que poderia oferecer à audiência.
Celular vira ferramenta de cobertura esportiva
A proposta da parceria foi permitir que os próprios fãs registrassem a experiência do Mundial.
Isso inclui situações que uma equipe tradicional de televisão nem sempre consegue acompanhar: a preparação antes da partida, encontros entre torcedores, deslocamentos pelas cidades, festas, tradições familiares e a maneira como diferentes culturas vivenciam o futebol.
Os filmes foram construídos com imagens e comentários produzidos a partir da perspectiva dos participantes. (Football Business News)
O resultado é um conteúdo mais próximo da linguagem que já domina redes como TikTok e Instagram: vídeos verticais, relatos pessoais e cenas registradas diretamente por quem está vivendo aquele momento.
Para a mídia esportiva, essa linguagem oferece uma possibilidade de complementar a transmissão profissional.
A televisão continua mostrando a partida com câmeras, narradores, comentaristas e repórteres. Nas redes, entretanto, o público pode acompanhar aquilo que acontece ao redor do jogo.
Estratégia ajuda a alcançar público digital
A parceria também faz parte de uma transformação mais ampla da BBC Sport.
Na Copa de 2026, a organização ampliou sua presença em plataformas digitais, incluindo YouTube e TikTok, além de desenvolver conteúdos específicos para dispositivos móveis.
A cobertura incorporou vídeos curtos, interação em tempo real, experiências digitais e conteúdos produzidos especialmente para redes sociais, em vez de simplesmente reutilizar material originalmente desenvolvido para televisão. (TM Broadcast International)
A colaboração com a Goal Click complementou essa estratégia ao acrescentar histórias produzidas em primeira pessoa.
A ideia era mostrar a Copa não apenas através do resultado das partidas, mas também das pessoas que estavam vivendo o torneio.
Influenciadores também dominaram parte da Copa
O crescimento do conteúdo produzido por fãs acontece paralelamente à expansão dos influenciadores profissionais dentro da mídia esportiva.
A coluna da TMC destaca outros dois projetos realizados durante a Copa de 2026.
O Convocados 2026, iniciativa realizada pela Play9 em parceria com a Globo, reuniu 2.026 influenciadores e alcançou 6,87 bilhões de visualizações e 409 milhões de engajamentos, segundo os números apresentados na publicação. (TMC)
Outra iniciativa foi o DAZN48, projeto que reuniu 48 criadores — um representante de cada país classificado para o Mundial — e ultrapassou 150 milhões de visualizações orgânicas de vídeo, de acordo com a mesma análise. (TMC)
Os exemplos mostram diferentes níveis da transformação.
De um lado estão creators profissionais, capazes de mobilizar grandes comunidades. Do outro estão torcedores comuns selecionados pela autenticidade e pela relevância de suas histórias.
Os dois grupos passam a ocupar espaços que anteriormente eram dominados quase exclusivamente pela mídia esportiva profissional.
Torcedor deixa de ser apenas consumidor
Durante décadas, a estrutura da mídia esportiva funcionou principalmente em uma direção.
Emissoras e jornais produziam a cobertura e o público consumia.
As redes sociais modificaram essa relação.
Torcedores agora comentam partidas em tempo real, publicam vídeos dos estádios, produzem análises, memes, transmissões paralelas e relatos pessoais.
A diferença é que grandes empresas de comunicação começaram a incorporar formalmente esse conteúdo às próprias estratégias editoriais.
O caso BBC Sport e Goal Click representa justamente essa evolução.
Em vez de esperar que vídeos espontâneos apareçam nas redes e eventualmente repercuti-los, a empresa estruturou previamente uma rede de pessoas encarregadas de registrar experiências específicas durante o torneio.
Autenticidade passa a ter valor editorial
Esse modelo também altera o significado de influência digital.
Durante boa parte da expansão do marketing de influência, tamanho da audiência foi um dos principais critérios para determinar o valor comercial de um creator.
Projetos baseados em fãs sugerem outro caminho.
Uma pessoa com poucos milhares de seguidores pode produzir um conteúdo valioso para uma grande organização caso tenha acesso, experiência, conhecimento ou uma história difícil de reproduzir por uma equipe convencional.
No caso da Copa, um torcedor acompanhando sua seleção dentro de uma comunidade local pode oferecer uma perspectiva completamente diferente daquela apresentada em um estúdio.
Isso transforma autenticidade em um ativo editorial.
Produção também pode se tornar mais descentralizada
Há ainda uma vantagem operacional.
A Copa do Mundo de 2026 foi disputada em 16 cidades-sede distribuídas por Canadá, Estados Unidos e México. A dimensão territorial torna particularmente difícil acompanhar todas as histórias interessantes exclusivamente com equipes profissionais.
Uma rede descentralizada de colaboradores permite chegar a casas, bairros, bares, comunidades e grupos de torcedores que dificilmente receberiam uma equipe completa de televisão.
A análise do Football Business observa que o modelo oferece uma maneira mais flexível de coletar conteúdo em um torneio espalhado por diferentes cidades e países. (Football Business News)
Surge uma nova discussão: quem captura o valor?
A expansão desse formato também cria questões comerciais importantes.
Se fãs produzem imagens e histórias capazes de gerar audiência para grandes veículos, plataformas e marcas, surge a discussão sobre como o valor econômico criado por esse conteúdo deve ser distribuído.
Esse é um dos principais pontos levantados pela análise publicada pela TMC.
À medida que comunidades deixam de funcionar apenas como público e passam a participar da produção editorial, empresas precisam discutir modelos de remuneração, direitos sobre o conteúdo e reconhecimento dos participantes. (TMC)
Essa questão tende a ganhar importância conforme projetos semelhantes se tornem mais frequentes.
Redes sociais mudam a definição de cobertura esportiva
A transformação não significa necessariamente o desaparecimento da cobertura jornalística tradicional.
Repórteres, fotógrafos, comentaristas e equipes profissionais continuam desempenhando funções essenciais, especialmente na apuração de informações, entrevistas, análise e transmissão das competições.
O que muda é que esse conteúdo passa a conviver com uma segunda camada de narrativa.
Enquanto a transmissão mostra o que aconteceu dentro de campo, os próprios torcedores conseguem mostrar como aquele acontecimento foi vivido fora dele.
Essa combinação ajuda a explicar por que grandes organizações estão investindo em conteúdos produzidos por creators e comunidades.
Copa de 2026 funciona como laboratório para o futuro
O Mundial deste ano serviu como uma demonstração em grande escala de como a cobertura esportiva pode funcionar em um ambiente fragmentado entre televisão, streaming, aplicativos e redes sociais.
A própria BBC ampliou recursos digitais durante a competição, incluindo vídeos curtos e experiências direcionadas às novas formas de consumo esportivo. (TM Broadcast International)
Nesse cenário, o projeto desenvolvido com a Goal Click representa mais do que uma coleção de vídeos de torcedores.
Ele mostra uma possível direção para a mídia esportiva: coberturas construídas simultaneamente por jornalistas, influenciadores e pelas próprias comunidades de fãs.
O torcedor deixa de ocupar somente a arquibancada ou a audiência digital. Ele também segura a câmera, escolhe o enquadramento e ajuda a contar a história.
E, à medida que esse conteúdo ganha espaço nas plataformas oficiais de grandes veículos, uma das próximas discussões da creator economy esportiva será justamente determinar como transformar essa participação em um modelo sustentável — tanto editorial quanto economicamente.
Fontes principais: TMC, publicação de Eduardo Mendes em 15 de agosto de 2026; Football Business, sobre a parceria BBC Sport/Goal Click; informações sobre a estratégia digital da BBC Sport para a Copa do Mundo de 2026. (TMC)
