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Pesquisa analisou 300 publicações no TikTok e Instagram e encontrou regras alimentares rígidas, valorização da aparência e informações potencialmente enganosas.
Vídeos com refeições consideradas “limpas”, listas de alimentos proibidos, suplementos e corpos definidos costumam aparecer nas redes sociais acompanhados da promessa de uma vida mais saudável. Uma nova pesquisa da Flinders University, na Austrália, entretanto, indica que parte desse conteúdo pode transmitir mensagens associadas à ortorexia nervosa, termo usado para descrever uma preocupação excessiva e rígida com alimentos considerados saudáveis ou “puros”. O trabalho foi publicado no Journal of Technology in Behavioral Science e voltou a ganhar destaque em setembro durante a semana australiana de conscientização sobre imagem corporal e transtornos alimentares.
Os pesquisadores analisaram 300 publicações populares do TikTok e Instagram identificadas por hashtags relacionadas a estilo de vida saudável, nutrição e “clean eating”. Entre os resultados, 67% das publicações enfatizavam alimentação limpa ou saudável, quase um terço apresentava algum tipo de restrição ou regra alimentar e uma em cada cinco classificava alimentos de maneira moralizada, como “bons” ou “ruins”. Outro dado chama atenção: 78% dos criadores analisados não eram profissionais qualificados, e mais de dois terços das informações sobre saúde foram classificadas pelos pesquisadores como enganosas ou potencialmente enganosas.
A descoberta não significa que acompanhar influenciadores de nutrição cause automaticamente um transtorno alimentar. O estudo analisou o conteúdo publicado e identificou características semelhantes a atitudes relacionadas à ortorexia, não uma relação direta de causa e efeito sobre cada seguidor. A pesquisa, porém, levanta uma pergunta relevante para quem consome dicas de alimentação diariamente: quando a busca por hábitos saudáveis deixa de ser flexível e começa a transformar comida, aparência e saúde em regras rígidas?
O que os pesquisadores encontraram nos conteúdos de alimentação saudável?
A equipe da Flinders University concentrou a análise em publicações populares associadas a temas como alimentação saudável, nutrição e clean eating. Segundo os pesquisadores, 67% dos posts enfatizavam conceitos de alimentação limpa ou saudável, enquanto quase um terço continha restrições ou regras relacionadas ao que deveria ou não ser consumido. Cerca de 20% dividiam alimentos entre categorias moralizadas, apresentando determinados produtos como “bons” e outros como “ruins”. A preocupação dos autores não está na recomendação de uma alimentação equilibrada em si, mas na maneira como algumas mensagens transformam escolhas alimentares em padrões rígidos de comportamento.
Outro elemento frequente foi a associação entre saúde e aparência. Quase dois terços das publicações apresentavam objetificação corporal, enquanto diferentes conteúdos relacionavam uma alimentação considerada perfeita à possibilidade de alcançar um corpo magro ou definido. A autora principal, Katie Porteous, pesquisadora de psicologia da Flinders University, explica que a ortorexia vai além do interesse normal por uma alimentação saudável e envolve uma fixação em consumir os alimentos considerados “certos” e evitar aqueles percebidos como inadequados. Os pesquisadores observaram justamente mensagens que valorizavam regras rígidas, ideais de alimentação limpa e a noção de que escolhas dietéticas perfeitas seriam capazes de produzir saúde e determinada aparência física.
O estudo também encontrou uma forte presença comercial. Três em cada quatro publicações promoviam suplementos ou os chamados “superalimentos”, muitas vezes apresentando esses produtos como componentes essenciais para a saúde sem fornecer contexto científico suficiente. Isso torna a discussão particularmente relevante para a creator economy: conteúdo de wellness pode misturar experiência pessoal, publicidade, estética e orientação de saúde dentro de um mesmo vídeo. Para o usuário que assiste rapidamente a dezenas de publicações, identificar onde termina uma experiência individual e começa uma recomendação potencialmente inadequada nem sempre é simples.
A pesquisa também encontrou uma diferença importante relacionada à formação dos autores. Influenciadores sem qualificação profissional representavam 78% dos criadores analisados, enquanto profissionais de saúde qualificados apresentaram probabilidade significativamente maior de fornecer orientações precisas e baseadas em evidências. Mais de dois terços das informações de saúde avaliadas no conjunto foram consideradas enganosas ou potencialmente enganosas. Esses números não significam que todo conteúdo produzido por influenciadores seja incorreto, mas mostram por que credenciais, fontes e contexto científico são importantes quando o assunto deixa de ser entretenimento e passa a interferir em decisões sobre alimentação e saúde.
O que é ortorexia e quando a alimentação saudável pode se tornar um problema?
A ortorexia nervosa é utilizada na literatura científica para descrever uma preocupação excessiva com a qualidade ou “pureza” dos alimentos, acompanhada de regras alimentares rígidas e comportamentos que podem comprometer o bem-estar. Ela não deve ser confundida simplesmente com o interesse por nutrição, planejamento das refeições ou preferência por determinados alimentos. O ponto central é a rigidez: comer passa a ser governado por padrões cada vez mais restritivos, enquanto quebrar essas regras pode provocar sofrimento, culpa ou ansiedade. A própria equipe da Flinders University ressalta que o problema está na transformação da busca por saúde em perfeccionismo alimentar.
Nas redes sociais, essa fronteira pode ficar menos evidente porque comportamentos restritivos frequentemente aparecem embalados como disciplina, autocuidado ou estilo de vida. Fotografias cuidadosamente produzidas, rotinas de exercícios e refeições esteticamente organizadas podem criar a impressão de que determinado padrão alimentar é necessário para alcançar saúde e aparência semelhantes às do influenciador. Os pesquisadores encontraram repetidamente uma mensagem implícita comparável a “coma como eu para parecer comigo”. A limitação dessa lógica é que peso, composição corporal e saúde dependem de inúmeros fatores, incluindo genética, idade, condições clínicas, contexto social, cultura, rotina e características individuais.
Pesquisas anteriores da mesma universidade ajudam a contextualizar o problema. Um estudo publicado em 2026 com 282 mulheres australianas entre 17 e 30 anos encontrou associação entre maior frequência de utilização de plataformas baseadas em imagens — incluindo TikTok, Instagram, Snapchat e YouTube — e maior comparação de aparência, internalização de ideais de magreza e corpo atlético e ansiedade. Como se trata de uma associação, os resultados não permitem concluir que simplesmente utilizar essas plataformas cause esses efeitos, mas reforçam a necessidade de compreender melhor como determinados conteúdos interagem com imagem corporal e comportamento.
Outra pesquisa recente da Flinders University analisou vídeos nos quais creators consomem grandes quantidades de comida. O estudo envolveu 446 jovens adultos da Austrália e da China e encontrou associação entre assistir frequentemente a esse tipo de vídeo e preocupações relacionadas à imagem corporal, desejos intensos por comida e sintomas ligados a comportamentos alimentares desordenados. Os próprios pesquisadores ressaltaram que os resultados não demonstram causalidade. Em conjunto, os trabalhos indicam que não existe apenas um tipo de conteúdo potencialmente problemático: tanto a exibição de restrição extrema quanto determinados vídeos de consumo exagerado podem transmitir mensagens pouco realistas sobre alimentação e corpo.
Como identificar dicas de alimentação confiáveis nas redes sociais?
O primeiro cuidado é verificar quem está oferecendo a orientação. Número de seguidores, qualidade da fotografia ou um corpo considerado atlético não demonstram conhecimento científico sobre nutrição. Quando um conteúdo apresenta recomendações que podem modificar significativamente a alimentação, o usuário deve observar a formação do autor, verificar se existem fontes confiáveis e desconfiar de afirmações universais. Promessas de que determinado alimento “desintoxica” o organismo, de que grupos alimentares inteiros precisam ser eliminados por todas as pessoas ou de que um suplemento é indispensável para alcançar saúde merecem atenção especial.
Também é importante observar a linguagem utilizada. Transformar comida em uma questão moral — na qual consumir determinado alimento torna alguém disciplinado e outro alimento representa fracasso — pode favorecer uma relação desnecessariamente rígida com a alimentação. A professora Ivanka Prichard, especialista em imagem corporal e uma das autoras da pesquisa, destaca que uma alimentação saudável deve ser flexível, agradável e sustentável, e que bem-estar não deveria ser definido por perfeição, restrição ou aparência. Essa distinção ajuda a separar educação nutricional de conteúdos construídos principalmente em torno de medo, culpa ou padrões corporais inalcançáveis.
Para influenciadores, a pesquisa também traz uma questão de responsabilidade. Um creator pode relatar a própria experiência com determinado padrão alimentar, mas isso não transforma uma estratégia individual em orientação apropriada para todos. Necessidades nutricionais podem variar consideravelmente, e condições clínicas específicas exigem avaliação individual. Quando há publicidade de suplementos, alimentos ou programas de dieta, a separação clara entre conteúdo comercial e informação de saúde torna-se ainda mais relevante.
No Brasil, pessoas que percebem mudanças importantes na relação com a alimentação — como restrições progressivas, medo intenso de determinados alimentos, culpa recorrente após comer ou sofrimento relacionado à imagem corporal — devem procurar avaliação profissional. Nutricionistas, médicos e profissionais de saúde mental habilitados podem investigar cada situação individualmente. Informações encontradas nas redes sociais não devem ser usadas para realizar autodiagnóstico ou substituir acompanhamento profissional.
O estudo da Flinders University não afirma que TikTok e Instagram sejam responsáveis por causar ortorexia, nem que toda publicação sobre alimentação saudável seja prejudicial. Sua contribuição é mostrar que mensagens associadas à rigidez alimentar aparecem com frequência em conteúdos populares de wellness e que grande parte das informações analisadas não veio de profissionais qualificados.
Para usuários, o resultado reforça a importância de consumir conteúdos de saúde com senso crítico. Para creators, mostra que influência também traz responsabilidade quando publicações podem interferir na alimentação e na percepção corporal de milhares de pessoas. Saúde não pode ser reduzida a uma fotografia, a uma lista universal de alimentos permitidos ou a um corpo específico, e recomendações individuais devem ser discutidas com profissionais habilitados.
Fontes
- Flinders University — Eat like me to look like me (08/09/2026)
- EurekAlert — publicação e dados do estudo da Flinders University
- Medical Xpress — TikTok and Instagram wellness posts may reinforce restrictive eating ideals
- Flinders University — estudo sobre redes sociais e imagem corporal feminina
- Flinders University — estudo sobre vídeos de alimentação, imagem corporal e comportamento alimentar
